FUNDADORA - Madre Purificação dos Anjos Silva
- A imagem de um retrato
- Biografia
- Início da Obra
- Pensamentos
Vestida com o seu hábito negro bastante rodado, donde sobressaía um peitilho branco engomado que lhe descia da cabeça. Fazia lembrar as amplas “cornettes” usadas pelos membros de outras Congregações Religiosas, que limitavam às utentes e também às outras pessoas – o ângulo de visão…; só que, por cima do engomado branco que escondia o cabelo, havia um lenço preto que descia pelas costas e se confundia com o negrume do hábito.
A Madre tinha um rosto largo; não diria que as feições fossem os traços finos de uma dama da aristocracia. As origens dela eram outras: as da gente do povo, habituada às lides difíceis da terra – uma terra, aliás árida e pedregosa, onde dominam os afloramentos de granito, como aqueles que o viandante pode ver ao percorrer a estrada da Guarda a Vilar Formoso.
Estas origens humildes marcaram a sua fisionomia; nunca mais delas se desprendeu. Mas a sua humildade não tinha nada de timidez de alguém que nunca saiu do seu buraquinho serrano. Ela sabia advogar com respeitosa desenvoltura, de viva voz e por escrito, a causa da sua Congregação ou a causa das crianças e das jovens que se abrigavam à sombra dela. E tanto o fazia diante de Governadores Civis e de Ministros de Estado, como junto das Autoridades Religiosas, mesmo que, algumas vezes, a sua rudeza de traços e de expressão deixasse no espírito de uma ou outra pessoa uma impressão menos favorável. A Madre Purificação era daquelas almas que ganham em ser conhecidas de perto.
Ocorre aqui a frase de S. Paulo: “Escolheu Deus o que é fraco para confundir os fortes…”.
A fé e a confiança desdobravam-se em coragem. Era preciso ter muita coragem para deixar a casa paterna e os horizontes da aldeia, onde era querida e estimada, para seguir a sua estrela, sabendo que os olhos saudosos da mãe nunca mais parariam de chorar.
Foi preciso coragem para deixar a Congregação Religiosa, onde a sua conduta era considerada exemplar, para se lançar numa aventura de que ninguém conhecia os caminhos, coragem para aguentar, em noites de tempestade, uma obra que lhe saíra das mãos, sob o impulso do Espírito e parecia agora um pequeno batel a despedaçar-se nas águas revoltas; coragem para aceitar a renúncia e retirar-se, confiando a outrem o governo da Congregação, até que a mão de Deus a viesse buscar.
Por muitas que tenham sido as suas limitações, Madre Purificação deixou à Congregação das Irmãs Servas da Sagrada Família este precioso legado: de humildade, de confiança e de coragem.
Tudo o que se pode medir com as nossas medidas humanas não tem avalia deste legado espiritual. Importa não guardá-lo no cofre, mas fazer dele a vida de todas aquelas que são as suas legítimas herdeiras.






Purificação dos Anjos Silva nasceu em Miuzela do Côa, distrito da Guarda, no dia 7 de março de 1904.
Filha de pais humildes que viviam no campo, era a terceira entre sete irmãos e irmãs.
Aos dez anos fez a sua primeira comunhão. Sem ninguém se aperceber, começou a ir rezar para a Igreja, mesmo quando não havia missa. Falava com Jesus sobre tudo o que lhe ia na alma. Era um carácter vigoroso e cândido.
A sua mãe era catequista, arranjava a igreja e orientava certas devoções do povo. Da sua mãe herdou o sentido da honra, do dever e do trabalho.
Com apenas dezoito anos, ingressou na vida religiosa, na companhia de Santa Teresa de Jesus, em Elvas.
Começou o seu postulantado em Tortosa, na Catalunha. Aí recebeu o misterioso apelo.
Costumavam as dez postulantes dar um passeio pela quinta da Comunidade, depois da merenda, à tardinha, em grupos de três.
Certo dia, provavelmente no mês de dezembro, a Purificação ouviu claramente uma voz que lhe dizia:
“Quero que fundes uma Congregação muito Pobre, muito Humilde e muito Observante.”
Nunca mais essa voz se ausentou da sua mente, como uma ordem a cumprir a todo o custo. Mortificava-se por isso e sofria em silêncio por não saber onde nem como dar-lhe realização.
No fim do noviciado, fez os seus votos, recebendo o nome de Irmã Purificação de Santa Teresa da Silva.
Entretanto, entregue a si e ao seu compromisso, começou a reconhecer que aquele Instituto das Teresianas não era a sua vocação. Por isso, logo de imediato, ainda antes da tomada de hábito, ela tinha falado à mestra das suas dúvidas, o que esta contestou animando-a a ir por diante.
A Irmã Purificação obedeceu, mas por ocasião dos seus votos perpétuos falou à própria Superiora Geral que, sabendo já do problema e julgando conhecê-lo bem, lhe afiançou o seguinte:
“Acredite, Irmã, que, se eu visse o contrário em si, eu mesma lhe procurava outro Instituto.”
E assim passaram vinte anos neste debate de consciência entre a dúvida e o mistério; todavia, o segredo foi sempre guardado e a ninguém ousou confiá-lo. Humildade ou vergonha de se sentir privilegiada? Mas, aquela voz que ouvira era cada vez mais insistente e incomodativa. Muitas vezes dizia para consigo mesma, num desabafo íntimo:
“Meu Deus, eu por aqui e a Vossa Obra a atrasar-se.”
Era como que uma profecia a tomar corpo nela.
Necessitava urgentemente de um orientador espiritual a quem pudesse confiar aquele segredo, de uma vez por todas, para o interpretar e ajudá-la no caminho a seguir.
Ora, acontece que, perto de Santo Tirso, tinham os Jesuítas um colégio chamado Colégio das Caldinhas, onde se encontrava como Superior e Director Espiritual, o Padre José Maria Alves, que também prestava assistência ao Colégio das irmãs Teresianas. Foi ele o escolhido para receber a confidência, guardada durante esses vinte anos.
Num autêntico discernimento espiritual, reservado aos ascetas, assegurou-lhe que o que lhe acabava de confiar era sério e que, quanto a ele, se tratava de um autêntico chamamento de Deus.
A honestidade moral, a par da sua obediência total às regras, a sua humildade e entrega a Deus não podiam enganar ninguém que a conhecesse. Por isso, lhe adveio a recompensa do Céu.
Este encontro foi a luz verde a abrir-lhe o caminho. Foi o que aconteceu no dia 30 de agosto de 1942.
Ao apresentarem-lhe o documento com a dispensa dos votos, o libelo libertador, ela quis assiná-lo de joelhos. Celebrava-se a Festa de Santa Rosa de Lima. A partir daí, não foi preciso mais nada, para que a Irmã Purificação pedisse ao seu confessor que agenciasse tudo com a Superiora Geral e a Santa Sé, a quem devia ser pedida a dispensa dos votos na Companhia ou Instituto de Santa Teresa, cuja vida muito admirava e agora não esqueceria mais como Santa Protectora a imitar.
Era o fim da segunda etapa da sua vida.
Partiu para Lisboa, onde se encontrava parte da sua família, chorada pelas suas Irmãs Religiosas que muito a estimavam e vieram em soluços de saudades à porta do Colégio de Santa Teresa despedir-se dela, algumas com lágrimas de natural afeto e muita admiração.
Não foi fácil o novo caminho a percorrer. A própria família não a terá recebido com muito entusiasmo e alegria. Antes com algumas manifestações de descrédito e talvez desconfiança, até porque regressara bastante fraca e algo doente.
Foi nestas circunstâncias que pôs mão à Obra, com a urgência possível, porque sabia e sentia a Obra de Deus há tanto tempo adiada.
Como tinha sido reembolsada do dote pelas Irmãs Teresianas, na importância de 650 escudos, que naquele tempo era ainda algum dinheiro, logo que lhe foi possível encontrar-se com o senhor Bispo de Mitilene, então Arcebispo de Évora, D. Manuel Trindade Salgueiro, que se encontrava em Lisboa, no Campo Santana, pedindo-lhe um conselho sobre o sonho de montar a Obra que Deus lhe pedia.
O senhor Arcebispo respondeu-lhe com um realismo impressionante de quem tinha prática da vida, em ordem a meter ombros a uma Obra dessa natureza, sobretudo tendo em conta as pobres migalhas que Purificação possuía.
“- Olhe que, para isso, seria preciso um milagre de Deus e Deus não está obrigado a fazer milagres.”
“- Pois eu tenho a certeza de que vai realizar-se, senhor Arcebispo.”
“- Se isso se vier a realizar, eu direi que é um milagre, contestou o bom prelado, com um sorriso carinhoso.”
Um ano depois, ao visitá-lo pela segunda vez, foi o próprio Arcebispo que lhe veio ao encontro de braços abertos para lhe dizer com um olhar radiante e agradecido:
“- Ó Irmã Purificação, afinal o milagre realizou-se! E de que maneira os vários milagres e foram multiplicando, desde o rápido aluguer de uma casa ma Rua Actor Isidoro, n.º 27, para crianças pobres e abandonadas até à Rua Carlos Mardel, n.º 96, onde foi necessário ocupar já três quartos do edifício, com rés-do-chão e 1.º andar Direito e Esquerdo.
Mas aquela casa era a primeira menina dos seus olhos, cujas primícias de abertura foram doze criancinhas.
A inauguração foi a 12 de novembro de 1942. Nesse mesmo dia o Pároco de Arroios, o senhor Cónego Joaquim Martins Pontes, entregou à Irmã Purificação uma declaração na qual o senhor Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, lhe concedia autorização para abrir a chamada Casa de Caridade das Irmãs Servas da Sagrada Família.
Últimos momentos
A SEMENTE QUE SE DESPRENDE
Na tarde cinzenta de sexta-feira, 22 de janeiro de 1988, sob um sol encoberto, chuva miudinha e frio glacial, na Comunidade da Casa da Divina Providência que se ergue na colina sobranceira ao Tejo, em frente ao monumento de Cristo Rei, pelas três horas da tarde, começava a agonia da Madre Fundadora. Já na noite de quinta para sexta-feira tinha sido de sofrimento, como que um reflexo do Jardim das Oliveiras.
A consolação e a força iam buscar-se à oração. Recitava-se o ofício da Agonia. A Madre sente muitas dores, olha para cada uma das Irmãs que se juntaram à beira da sua cama neste dia cinzento. O seu olhar é brilhante e profundo como sempre, mas deixa antever o fim que se aproxima.
– Vou morrer.
Tristes, todas as Irmãs se juntaram a ela para rezarem uma última oração.






“Sede generosas e abertas à força do Espírito.”
“A nossa vida deve ser de oração, trabalho e união com Deus.”
“O silêncio é a morada das grandes almas.”
“É nas provações que devemos mostrar o nosso amor a Jesus.”
“As Irmãs sejam corajosas, esforçadas e valentes.”
“A paz é o sossego do espírito e o fruto de uma boa consciência.”
“Sejamos simples como pombas e prudentes como serpentes.”
“Servir a Deus e aos Irmãos é uma felicidade verdadeira.”

